Eu estava saindo do meu curso de Caixa de Areia (uma possível técnica utilizada por psicoterapeutas) e me dei conta da solidão. Meu namorado não podia sair comigo, meu companheiro de jogo virtual estava viajando e eu não queria me relacionar com a família, então eu pensei, vou para um banco, deitar, escutar música e prestar atenção só no meu eu interior.
Depois de entrar no carro, percebi que não era um banco que eu queria...eu queria água, terra, sujeira...tudo o que me remetesse a caixa de areia. Dei voltas pelo meu bairro, até achar uma estrada de chão, cheia de curvas e caminhos para serem seguidos, mas que todos dariam na beira de um lago.
A primeira coisa que eu fiz, após ter estacionado o carro, foi tirar o tênis e as meias, colocar o banco para trás, deitar e escutar música. Depois, sai do carro apenas com a chave e o celular tocando música, coloquei meus pés na terra cheia de pedrinhas - hesitando, pensando em como o tapete do carro ficaria depois que eu voltasse para lá, mas segui adiante.
Sentindo o vento no meu rosto, as pedras e a terra no chão, me encorajei para ir adiante. Fui até a beira do lago e comecei a pensar e observar aquela imensidão escura e ao longe, conseguia enxergar casas e estrada com carros passando.
Resolvi levantar a barra da minha calça jeans, e colocar os pés na água. Que sensação gostosa, era exatamente aquilo que eu precisava. E logo veio a vontade de jogar o celular na água, tirar a roupa ali mesmo e mergulhar naquele lago preto e sujo. Mas, eu hesitei...veio uma censura, um pensamento: "como eu vou entrar no carro, toda molhada? Eu não trouxe toalha. Já sei...eu vou voltar para casa e entrarei na piscina, lá eu tenho toda a estrutura de que preciso".
Fiquei mais um tempo ouvindo música, cantando para mim, para a natureza e dancei. Dancei sem vergonha, dancei com vontade, toquei bateria e guitarra, cantei, dei um show para aquelas luzes brilhantes ao longe.
Voltei para a casa, troquei de roupa e fui direto para o jardim. Pisei agora na grama e na terra, e quando pensei em entrar na piscina, eu vi uma pessoa da minha família no quarto, pertinho da piscina e pensei: "Não quero me entregar para aquela imensidão, com alguém me observando...esse momento é totalmente meu, único, não quero me mostrar para o outro".
Resolvi deitar em uma espreguiçadeira que estava em cima de um deck de madeira, perto de um rio com carpas. Ali, deitada, eu senti algo gelado, era a água gelando a minha pele, atravessando a roupa. Fiquei alguns minutos de olhos fechados, escutando o barulho da água. Algumas vezes olhava as poucas estrelas que já apontavam no céu, outras vezes lembrava do que tinham dito no curso e tentava entender o que estava sentindo.
Até que eu desisti de tentar entender! Para que entender? Por que apenas não se permitir sentir? Fiquei ali me questionando mais alguns minutos, quando meu corpo resolveu ir para a beira da piscina. Coloquei meus pés e a água estava quentinha, mas muito escura. Comecei a observar meus pés naquela imensidão e senti medo, medo de ser sugada e nunca mais conseguir sair, medo de não voltar mais para a realidade, medo de não ser escutada e de ser esquecida.
De imediato, eu tirei meus pés e coloquei eles em cima da lona que cobria a piscina. Mas, logo depois, resolvi ir embora dali, ficar longe desse medo e fechar esse ciclo. Fui para o banheiro e tomei um banho daqueles, que lava o corpo, o cabelo e a alma. Coloquei minhas mãos na parede e fiquei alguns minutos sentindo as gotas escorrendo pelas minhas costas, me entreguei aquela água...aquela, que eu queria ter sentido no lago e aquela que eu queria ter sentido na piscina.
E ali, eu já estava em um ambiente seguro. Um ambiente onde eu posso me entregar por completo, apenas para mim. Onde ninguém pode entrar, onde ninguém vai penetrar e onde existe apenas eu.

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