Hoje, depois de 4 anos eu entendi o seu desejo...o
desejo de preferir dormir depois do almoço do que estar comigo. Mas eu não consigo
fazer isso, porque para mim, a presença dele é muito mais importante do que
qualquer tarde de sono.
Sono eu posso repor a noite, outro dia, no feriado,
no final de semana. Mas ele, ele eu não posso. Se eu pudesse, nesse exato
momento, eu trocaria um dia de vida para poder estar com ele. Ah se fosse fácil
assim fazer essas trocas...se a vida fosse palpável quem sabe não desse certo?
A vida é tudo, menos palpável. Pra mim ela parece à
água que passa por entre os dedos, que pode até ficar guardada em um recipiente,
mas um dia ela evapora, acaba, é excretada.
E agora eu estou aqui, sozinha, não mais no silêncio,
pois consigo escutar os pássaros cantando lá fora, os meus dedos digitando
nesse teclado, meu coração batendo e as minhas lembranças se remoendo na minha
mente. E pensando em vida, eu chego à morte.
Morte, algo tão real e ao mesmo tempo tão surreal. Tão
perto, mas tão longe. Se eu pudesse eu chorava, chorava por ele, chorava por
mim, chorava pela perda, chorava pelas minhas lembranças, pelas que eu não tive
e pelas que eu já tive. Minhas lembranças já estão fugindo de mim, aquelas que
eu sempre preservei e nutri, hoje tem rostos e sensações que eu não consigo
mais sentir, mais tocar.
Um dia eu
fechei meus olhos e tentei tocá-las e entrei em desespero, porque algumas já estão
se perdendo no tempo e no espaço. Ela não
tem mais formas, cheiros, sensações, sentimentos, emoções, texturas...daqui a
pouco elas não tem mais nome, não vão ter mais dia, mês, ano, décadas, tempo. Essas
lembranças começam a evaporar, igual à água, igual à vida.
Eu posso deixá-las ir? Eu posso esquecer as pessoas
que passaram pela minha vida? Eu posso esquecer as que foram especiais e as que
não foram? Eu posso deixar todos irem? A minha garganta se fecha cada vez mais e
é quando as lagrimas escorrem pelos meus olhos.
Eu me
permito ficar no luto por algum tempo? Eu posso ficar no luto pelo que passou? Eu
posso sentir a nostalgia de não ter mais o que eu tive? Posso eu, abrir mão de
todas as lembranças que eu guardei, de todas as emoções que eu não expressei,
de tudo que está reprimido?
Eu posso...desde que eu consiga voltar para a
realidade e enxergar o que é o hoje. Desde que eu não abra mão da minha própria
essência. Mas o que é meu? Como saber o que é só meu e o que é do outro? O que
eu peguei do outro para fazer parte de mim e o que pegaram de mim? O que eu
criei, que é só meu? Quem sou eu?
Quem é você? E quem nós somos, juntos? Eu posso
ficar só com você agora? Posso criar novas lembranças, fantasias e sonhos com
você? Você me permite usar a sua imagem, as suas ideias, as suas emoções, as
suas dores, o seu tempo e o seu espaço? Podemos unir o que nós temos, para
formar uma nova lembrança?
Nós podemos?

