sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Eu

Hoje, depois de 4 anos eu entendi o seu desejo...o desejo de preferir dormir depois do almoço do que estar comigo. Mas eu não consigo fazer isso, porque para mim, a presença dele é muito mais importante do que qualquer tarde de sono.
Sono eu posso repor a noite, outro dia, no feriado, no final de semana. Mas ele, ele eu não posso. Se eu pudesse, nesse exato momento, eu trocaria um dia de vida para poder estar com ele. Ah se fosse fácil assim fazer essas trocas...se a vida fosse palpável quem sabe não desse certo?
A vida é tudo, menos palpável. Pra mim ela parece à água que passa por entre os dedos, que pode até ficar guardada em um recipiente, mas um dia ela evapora, acaba, é excretada.  
E agora eu estou aqui, sozinha, não mais no silêncio, pois consigo escutar os pássaros cantando lá fora, os meus dedos digitando nesse teclado, meu coração batendo e as minhas lembranças se remoendo na minha mente. E pensando em vida, eu chego à morte.
Morte, algo tão real e ao mesmo tempo tão surreal. Tão perto, mas tão longe. Se eu pudesse eu chorava, chorava por ele, chorava por mim, chorava pela perda, chorava pelas minhas lembranças, pelas que eu não tive e pelas que eu já tive. Minhas lembranças já estão fugindo de mim, aquelas que eu sempre preservei e nutri, hoje tem rostos e sensações que eu não consigo mais sentir, mais tocar.
 Um dia eu fechei meus olhos e tentei tocá-las e entrei em desespero, porque algumas já estão se perdendo no tempo e no espaço.  Ela não tem mais formas, cheiros, sensações, sentimentos, emoções, texturas...daqui a pouco elas não tem mais nome, não vão ter mais dia, mês, ano, décadas, tempo. Essas lembranças começam a evaporar, igual à água, igual à vida.
Eu posso deixá-las ir? Eu posso esquecer as pessoas que passaram pela minha vida? Eu posso esquecer as que foram especiais e as que não foram? Eu posso deixar todos irem? A minha garganta se fecha cada vez mais e é quando as lagrimas escorrem pelos meus olhos.
 Eu me permito ficar no luto por algum tempo? Eu posso ficar no luto pelo que passou? Eu posso sentir a nostalgia de não ter mais o que eu tive? Posso eu, abrir mão de todas as lembranças que eu guardei, de todas as emoções que eu não expressei, de tudo que está reprimido?
Eu posso...desde que eu consiga voltar para a realidade e enxergar o que é o hoje. Desde que eu não abra mão da minha própria essência. Mas o que é meu? Como saber o que é só meu e o que é do outro? O que eu peguei do outro para fazer parte de mim e o que pegaram de mim? O que eu criei, que é só meu? Quem sou eu?
Quem é você? E quem nós somos, juntos? Eu posso ficar só com você agora? Posso criar novas lembranças, fantasias e sonhos com você? Você me permite usar a sua imagem, as suas ideias, as suas emoções, as suas dores, o seu tempo e o seu espaço? Podemos unir o que nós temos, para formar uma nova lembrança?
Nós podemos?


terça-feira, 9 de outubro de 2012

O que eu senti no meu estágio



  Lá estava eu no meu estagio, enfurnada em uma sala quente, encarando a tela do computador, evitando não olhar para os olhos dela.
Silencio, era tudo o que eu conseguia sentir. Comecei a perceber que a chuva cai do lado de fora, e me prendi ao cheiro de terra molhada. Uma musica me veio a cabeça e tudo o que eu conseguia fazer era ficar cantando-a mentalmente, sentindo o cheiro de chuva.
Aquele silêncio era ensurdecedor. Eu não sabia o que falar para ela, não sabia se podia falar algo. Tentei puxar algum assunto, mas a conversa não fluía. Então eu resolvi entrar no meu mundo interno e foi quando aquele silencio ressoou na minha alma e eu percebi que ele estava me incomodando.
Mas porque aquele silêncio me incomodava? Eu me sentia na obrigação de animá-la devido ao termino do seu namoro? Eu me sentia obrigada a dar atenção a ela, por mais que ela não quisesse? E foi quando eu entendi que o silêncio só incomodava a mim mesma.
Para ela, era como se eu não estivesse ali. Ela continuou olhando e olhando para a tela do computador da sala, mexendo no mouse, tão concentrada que era como se não tivesse espaço, naquela sala, para a minha pessoa. Era estranho ver ela daquele jeito, sem querer conversar e falar de futilidade do dia a dia.
Comecei a ficar angustiada, olhava as horas e via que falta uma hora para ela ir embora. A minha vontade era de sair correndo para ir conversar com alguma pessoa, mas eu não queria deixá-la sozinha. Achei que a minha presença fisicamente lá, naquela minúscula sala, mostraria a ela que eu estava ali para o que desse e viesse.
A chuva começou a ficar mais forte, e as pessoas das outras salas começaram a conversar e comentar sobre a mudança de tempo em Brasília. Aquilo sim era uma conversa fútil, fútil comparada com o que eu estava sentindo e passando naquela sala.
A sala estava iluminada, com dois computadores um na frente do outro, ligados, mas desconectados entre si. Era eu e ela, desconectadas, cada uma no seu mundo interno, e foi quando eu reparei que eu preferi escrever isso do que tentar interagir com ela. Eu precisava escrever, escrever porque aquele silêncio estava me sufocando, estava me deixando sem ar.
É...como o silencio pode produzir sentimentos e emoções tão fortes, só basta ele para você pensar e fantasiar sobre muitas coisas. Eu gosto dele, gosto dele quando eu não sinto necessidade de ter de agradar o outro. Acho que vou aprender a lidar com ele quando ela trouxer ele de novo pra a nossa sala.
A chuva diminuiu de intensidade e eu voltei a realidade. Tinha que estudar para a prova do dia seguinte. Ah, mas se eu pudesse eu ficaria navegando por esse silêncio que diz tanto, e ao mesmo tempo não diz nada.